Deboche com Bíblia e “conserva” em desfile pró-Lula provoca reação nacional
Crítica se concentra na percepção de que símbolos caros a milhões de brasileiros foram instrumentalizados para reforçar uma narrativa ideológica, num ambiente festivo financiado com recursos públicos
A repercussão ao desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula, extrapolou a avenida e incendiou as redes sociais. Assim que trechos da apresentação passaram a circular em vídeos e recortes com cenas que ridicularizam a família e à fé cristã, hashtags de repúdio ganharam força, acompanhadas de manifestações de lideranças religiosas, influenciadores e parlamentares que classificaram o espetáculo como “desrespeitoso” e “ofensivo”.
A crítica se concentra na percepção de que símbolos caros a milhões de brasileiros foram instrumentalizados para reforçar uma narrativa ideológica, num ambiente festivo financiado com recursos públicos e com ampla exposição midiática. Já os defensores do desfile alegam que o Carnaval é historicamente espaço de sátira, crítica social e irreverência.
O ator da Globo, Juliano Cazarré, se somou aos críticos. Em publicação no instagram, com imagem onde ele aparece dentro de uma “lata de conserva” junto com a família, o ator se expressou dizendo: “Tudo o que é bom, belo e verdadeiro deve ser conservado. O que é mau há de se corromper rapidamente pela própria maldade”, sustentou.
Ao responder a um comentário em que foi chamado de “ridículo”, Cazaré respondeu: “Ridículo é quem se sente atingido pela família dos outros, a ponto de querer ridicularizar as famílias num desfile de carnaval”.
O humorista e influencer Joel Cavalcante também ironizou a escola de samba: “Uma homenagem especial às famílias conservadoras (…) em latas, prontinhas para virarem piada”. Em seguida, ele questionou o sentido do humor. “Eu acho curioso como o humor só funciona quando zombo sempre do mesmo grupo: o cristão, a família conservadora…Tem milhões de brasileiros que valorizam a fé, família e tradições, e viram latas em desfiles financiados por dinheiro público. Isso é sátira legítima ou desprezo institucionalizado?”, questionou.
O deputado federal Gilberto Nascimento, presidente da Frente Parlamentar Evangélica, afirmou que o desfile promoveu um “deboche criminoso contra a fé cristã”, criticando a representação de conservadores como latas de conserva e o que chamou de desrespeito aos valores religiosos de milhões de brasileiros. Para ele, o uso de recursos públicos para esse tipo de representação simboliza humilhação e afronta à dignidade dos cidadãos religiosos.
Já o deputado federal Nikolas Ferreira reagiu nas redes sociais classificando o desfile como um “comício em rede nacional” e anunciou que pretende acionar a Justiça, argumentando que o evento teria funcionado como promoção política disfarçada de manifestação cultural — acusando o espetáculo de violar princípios legais ao, segundo ele, favorecer Lula eleitoralmente.
Ação no TSE
A polêmica também chegou ao campo institucional. Parlamentares e advogados protocolaram representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sustentando que o desfile teria extrapolado os limites da manifestação cultural ao promover, segundo os autores, conteúdo de viés eleitoral favorável ao presidente Lula, o que poderia configurar propaganda irregular.
Repúdio
Em paralelo, a seccional da OAB do Rio de Janeiro divulgou nota de repúdio classificando como inaceitáveis ataques ou manifestações que desrespeitem a liberdade religiosa, ressaltando que a crítica política não pode se converter em ofensa a crenças e valores protegidos pela Constituição.
‘Família tradicional’
A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida, em um de seus setores, a ala intitulada “Neoconservadores em conserva” (Ala 22 – Ala da Comunidade), descrita internamente pela escola como um quadro de sátira política.
No material divulgado pela agremiação, o grupo é apresentado como oposição organizada ao presidente Lula e associado, no campo político, a seguidores da “extrema direita”.
Segundo o texto de apresentação da ala, a fantasia usa a imagem de uma lata de conserva para representar o que o enredo chama de “família tradicional”, formada exclusivamente por homem, mulher e filhos. O documento afirma que os componentes carregam elementos que identificariam diferentes segmentos ligados ao neoconservadorismo, como representantes do agronegócio, uma figura de “mulher de classe alta”, defensores da Ditadura Militar e grupos religiosos evangélicos.
A descrição também cita o Congresso Nacional, apontando a existência de um bloco conservador que defenderia pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação das Forças Armadas, interesses do agronegócio e a preservação de “valores tradicionais da família”.

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