A briga não é sobre Ciro Gomes
Sem a imagem de Jair Bolsonaro na urna, a família e o partido passaram a disputar o mesmo espólio
O atrito entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro é a primeira crise visível de uma sucessão que o bolsonarismo ainda não conseguiu organizar. Logo, o conflito está longe de ser “briga doméstica”. A verdade é que a divergência em torno do apoio do PL a Ciro Gomes no Ceará serviu apenas como fósforo. O buraco é mais embaixo.
De um lado, está Michelle, falando para a base que exige fidelidade absoluta ao antipetismo e rejeita alianças consideradas “impuras”. De outro, Flávio, tentando operar a política como ela é, feita de palanques, acordos regionais e os cálculos de sobrevivência eleitoral.
Ocorre que o bolsonarismo cresceu combatendo exatamente esse tipo de pragmatismo. Por isso, quando Michelle reage essa forma, ela não está apenas contrariando uma decisão partidária. Está disputando o direito de dizer o que é ou não aceitável em nome do legado de Jair Bolsonaro.
Flávio, que gravou vídeo pedindo desculpas de Michele, saiu do episódio menor do que entrou (aliás, ele já estava diminuindo, por causa da amizade com o “irmão” Daniel Vorcaro, só revelada por vazamento de áudio via The Intercept).
Saiu menor não porque tenha defendido uma aliança controversa, mas porque foi contestado por alguém com mais apelo emocional junto à militância. O senador pode ter mandato, sobrenome e espaço na cúpula do PL. Michelle tem outra coisa: conexão com a parcela mais fiel, religiosa e identitária do bolsonarismo.
Daí, a crise expõe o dilema do PL. O partido (parece que) quer vencer eleições, ampliar alianças e manter musculatura nacional. Mas depende de uma base que não se move apenas por estratégia, mas sim por ressentimento, lealdade e símbolos. Nesse terreno, Michelle fala uma língua que os operadores partidários nem sempre dominam.
O episódio mostra que Jair Bolsonaro ainda é o centro gravitacional da direita, mas já não consegue impedir que seus satélites colidam. Sem a imagem dele na urna, a família e o partido passaram a disputar o mesmíssimo espólio: votos, autoridade e o “legado”.
Portanto, a briga não é sobre Ciro, mas, sobre quem manda quando Bolsonaro não pode mais mandar sozinho.

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